Projeto literário, artístico e cervejeiro

Cadáver Esquisito — uma cerveja, seis autores, seis histórias, seis rótulos

Cadáver Esquisito
  • 01Uma cerveja
  • 02Seis autores
  • 03Seis histórias
  • 04Seis rótulos
  • 05Um cadáver
As seis garrafas Cadáver Esquisito lado a lado, cada uma com um rótulo ilustrado diferente

I–VI · deslize

01 — O Projecto

Um jogo
coletivo,
engarrafado

O cadavre exquis é um jogo surrealista: cada autor escreve sem ver o que escreveu o anterior, e do encadeamento nasce um corpo estranho — coerente na sua incoerência.

O Cadáver Esquisito aplica essa regra à escrita, à ilustração e à cerveja: seis histórias, seis rótulos, uma única cerveja que os atravessa a todos. Não é uma coleção de garrafas — é um objeto editorial que por acaso se bebe.

Esta cerveja não é uma qualquer. Aos ingredientes do costume, cozinhados pelo talento do cervejeiro João Brazão a partir de receitas tradicionais, acrescentámos letras, desenhos e o desejo. A bruta sede, portanto, de juntar vontades suscitando os mais variados encontros: leitura e prazer, delírio e engenho, íntimo e colectivo, pensamento e festa. Celebramos a vida em momento difícil criando nos vários sentidos: uma cerveja, seis contos, seis ilustrações de Nuno Saraiva, um livro, uma tipografia, um filme, uma pele entretecida pela deadinbeirute™. Um diálogo à mesa da Arranha-céus. Através do humor, da poesia e da imaginação, a boa prática do cadáver esquisito abre as torrentes da liberdade e do amor.

02 — Seis histórias / seis rótulos

Seis corpos

I–VI
  • Garrafa Cadáver Esquisito com o rótulo Angústia para o jantar
    I

    Angústia para o jantar

    Afonso Cruz

    Emiliano sentou-se. A discussão começaria em breve, era inevitável, ainda as entradas se amontoavam na mesa do Snack Bar O Jorge, ainda nem sequer fora servida a sopa do dia, de legumes, e já se instalara o clima tenso que fazia parte destes jantares mensais entre Emiliano e Adão, encontros que mantinham e cultivavam desde o tempo da faculdade. A janela aberta, naquela noite de verão, deixava passar a luz de uma imponente lua cheia. Os cortinados semitransparentes esvoaçavam. Emiliano pousou um livro, Ensaio sobre a cegueira - O estado da arbitragem em Portugal, em cima do cachecol do Benfica que Adão havia pousado na mesa, dando com esse gesto início às hostilidades do costume.

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  • Garrafa Cadáver Esquisito com o rótulo Você está aqui
    II

    Você está aqui

    João Paulo Cotrim

    Foram entrando um a um. Trazem fé uns, outros fezes. Mal passam a porta são criaturas naturais do habitat. Respirações dissonantes, cavas, de pulmão cheio, ou lestas, afogueadas, varrimento panorâmico de saudações, palmas que batem no ar, amizades a polirem-se, a engalanarem-se para ficar com as frases do habitual ou mais tontas, pés arrastando-se, passada larga, passarinhada, botifarras e saltos agulha, em fundo retinente de cristais entrechocando, talheres rebuscando pratos, frases que se perdem no ar, sussurros atapetados, lengalenga de carpideira, ambulâncias riscando as montras, a cidade viva a penetrar pelo entreabrir das portas, pedidos repetidos em vogais abertas e cantadas como lotaria, para postigos que entornam da cozinha o som das carnes batidas e do óleo estaladiço nas frigideiras escaldantes.

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  • Garrafa Cadáver Esquisito com o rótulo Não era fácil arranjar um homem
    III

    Não era fácil arranjar um homem

    Valério Romão

    Quando começaram a nascer mais mulheres que homens, ninguém se preocupou grandemente. Apenas os catastrofistas de plantão, capazes de divisar o apocalipse numa gralha no rótulo de um boião de pickles, foram lestos a anunciar o fim do mundo ao virar da esquina. Ainda awssim, nem esses foram capazes de prever o caos que se seguiu. O que começou por ser uma anomalia estatística com algum interesse demográfico mas pouco relevante transformou-se, num espaço de duas gerações, numa catástrofe global. No início, para cada homem nasciam duas mulheres. Não tardou muito até o nascimento de um rapaz ser uma excepção assinalável.

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  • Garrafa Cadáver Esquisito com o rótulo Funeral
    IV

    Funeral

    Paulo José Miranda

    Estava um dia propício a esquecer alguém. A campa aberta, ferida da terra, do chão, ferida aberta a mostrar as entranhas do mundo e do nosso destino. E, junto a ela, meia dúzia de pessoas imóveis olhavam os coveiros com suas longas capas pretas, por onde escorria abundantemente a água, pensando cada uma delas para si mesma em como a vida é difícil. A chuva caía forte sobre a terra e sobre os ciprestes, sobre o mármore das campas e as poucas pessoas que seguravam os guarda-chuvas com os pés enlameados, os rostos gélidos e o cano das calças encharcadas. As pás começaram a fazer-se ouvir, misturando nos ouvidos humanos as pedras, a terra, a chuva sobre a madeira envernizada do caixão, que já parecia em paz no fundo da cova, no fundo do nada ou do início dele.

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  • Garrafa Cadáver Esquisito com o rótulo O Trevo da Cantuária
    V

    O Trevo da Cantuária

    Luís Carmelo

    De manhã cedo, o sol varre as montras ainda lacradas pelo gradeamento e transforma a fachada numa caixa de luz. Depois a vida começa: o toldo ocupa-se das sombras, o leiteiro coloca as garrafas junto às portadas e eu tornei a olhar para a cegonha pintada na frontaria do pequeno hotel. Segui pela M20 na direcção de Ashford e da região de Hythe com o objectivo de visitar a quinta de Pent onde Joseph Conrad viveu durante quase uma década. Estacionei o carro e com a maresia a fazer de sudário corri pelo relvado ao longo do muro de tijolo de onde se vê a antiga eira. Entrei na enorme cozinha e imaginei logo Conrad de gestos largos a atirar latas de cerveja e chávenas de chá contra a lareira, enquanto discutia com amigos acerca dos direitos divinos da realeza.

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  • Garrafa Cadáver Esquisito com o rótulo Eduarda e Júlia
    VI

    Eduarda e Júlia

    Luís Afonso

    Não se pode dizer que Eduarda e Júlia fossem as melhores amigas. Mas davam-se bem, trabalhavam juntas há mais de dez anos. Eduarda foi a primeira a entrar para a empresa, Júlia chegou uns meses depois. Ambas economistas, da mesma idade, partilhavam um gabinete. A relação profissional era sólida, davam cobertura uma à outra sempre que necessário. Contudo, apesar dessa cumplicidade, não se visitavam, nem tão-pouco conheciam as respectivas famílias. A vida privada surgia apenas com periodicidade semanal, à sexta-feira, o dia em que costumavam almoçar juntas antes do fim-de-semana, habitualmente num restaurante ali próximo que tinha cervejas óptimas.

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01/06
Garrafa Cadáver Esquisito em detalhe

03 — A cerveja

Uma só
cerveja

O líquido é o denominador comum: o mesmo em todas as garrafas, como a voz única que atravessa seis mãos diferentes. O que muda é o rótulo — e a história que ele carrega.

Estilo
Belgian IPA
ABV
7.7%
Formato
Garrafa de 75 cl, cápsula dourada e lacre
Produção
João Brazão
Edição
Seis rótulos, uma só cerveja

04 — Autores

Seis mãos que nunca se viram

Seis autores, seis vozes, seis rótulos. Cada um escreveu o seu texto sem conhecer o dos outros, num jogo de cadáver esquisito que atravessa cerveja, literatura e imagem.

  • I
    Retrato de Afonso Cruz

    Afonso Cruz

    Angústia para o jantar

    Talvez a reflexão de Afonso Cruz (Figueira da Foz, 1971) acerca dos malefícios que o sedentarismo infligiu na nossa civilização tenha sido bebida enquanto palmilhava as sete partidas do mundo, isto na sequência de sólido percurso, não apenas enquanto contista ou romancista, mas também desenhador e músico.

    Biografia
  • II
    Retrato de João Paulo Cotrim

    João Paulo Cotrim

    Você está aqui

    João Paulo Cotrim (Lisboa, 13 de março de 1965 - 26 de dezembro de 2021) foi um jornalista, escritor e editor português. Foi o fundador da Abysmo.

    Biografia
  • III
    Retrato de Valério Romão

    Valério Romão

    Não era fácil arranjar um homem

    Valério Romão (Clermont Ferrand, França, 1974) prolonga o exercício na navalha da escrita, por enquanto e sobretudo no romance e no teatro, com uma ideia performática do acto literário, pelo que não será difícil encontrá-lo dizendo versos em voz alta, com acompanhamento ou nem por isso. Ou discorrendo nas redes sociais sobre gatos.

    Biografia
  • IV
    Retrato de Paulo José Miranda

    Paulo José Miranda

    Funeral

    Paulo José Miranda (Aldeia de Paio Pires, 1965), no Brasil ou na Turquia, alimenta paixões tão díspares na aparência quanto o blues ou o cinema, o chá ou o queijo, sem nunca perder o horizonte da filosofia, que persegue nos seus romances como na poesia.

    Biografia
  • V
    Retrato de Luís Carmelo

    Luís Carmelo

    O Trevo da Cantuária

    Luís Carmelo (1954-2023) nasceu em Évora a 25 de Agosto de 1954. Doutorou-se pela Universidade de Utreque, na Holanda. Foi vencedor do Prémio de Ensaio da Associação Portuguesa de Escritores 1988 com a obra 'A Tetralogia Lusitana de Almeida Faria' e finalista do Prémio Literário Casino da Póvoa/ Correntes d'Escritas 2019 com o livro de poesia 'Tratado'. Tem publicados 16 romances: 'Entre o Eco do Espelho' (1986), 'Cortejo do Litoral Esquecido' (1988), 'No Princípio era Veneza' (1990), 'Sempre Noiva' (1996), 'A Falha' (1998), 'As Saudades do Mundo' (1999), 'O Trevo de Abel' (2001), 'Máscaras de Amesterdão' (2002), 'O Inventor de Lágrimas' (2004), 'E Deus Pegou-me pela Cintura' (2007), 'A Dobra do Crioulinho' (2013), 'Gnaisse' (2015), 'Por Mão Própria' (2016), 'Sísifo' (2017), 'Cálice' (2020) e 'O Planisfério' (2023).

    Biografia
  • VI
    Retrato de Luís Afonso

    Luís Afonso

    Eduarda e Júlia

    Luís Afonso (Aljustrel, 1965), mestre celebrado do comentário humorístico do nosso quotidiano político e desportivo, nas páginas de inúmeros jornais, mantém a paixão de infância pelos carros, de corrida e dos capazes de palmilhar todo o terreno e, revelou-se, há tempos, contista de largo espectro.

    Biografia
  • VII
    Retrato de Nuno Saraiva

    Nuno Saraiva

    Ilustrações

    Nuno Saraiva (Lisboa, 1969).

    Biografia
  • VIII
    Retrato de João Brazão

    João Brazão

    Cerveja

    [PLACEHOLDER]

    Biografia

05 — Livro

Ler,
beber,
guardar

As seis garrafas formam um conjunto: texto, ilustração e cápsula dourada num só objeto colecionável. A edição impressa reúne as histórias completas e as ilustrações originais.

Design: Deadinbeirute™ Ilustrador: Nuno Saraiva Escritores: Afonso Cruz, João Paulo Cotrim, Luís Afonso, Luís Carmelo, Paulo José Miranda, Valério Romão. Colecção: Cadáver Esquisito Volume Um Capa: Cartolina Metsaboard 255 gr. Miolo: Munken Pocket Plus Creme 1.8 80 gr. impresso a preto e branco. Data: Nov-2021 ISBN: 9789898980182 Dimensões: 11 x 15 cm Núm. páginas: 152 págs

Capa do livro Cadáver Esquisito Volume Um

Cadáver Esquisito · Volume Um

06 — Loja

Levar o cadáver

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